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:: Segunda-feira, Maio 24, 2004 ::
Se o amor é vão
Tu sabes o quanto eu costumava rir-me para ti.
Quando me sopravas na barriga e eu me ria sem ter cócegas.
Lá fora corria toda uma vida.
Havia um rapaz a ressacar, que pedia perto dos sinais.
Pedia dinheiro para lhe devolver a expressão e a cor da cara e a focagem da vista.
Pedia de mansinho, mas num desespero trémulo que lhe denunciava o prazer por que tanto ansiava.
O prazer que antes fora e que, agora, era só consolo por obrigação.
Passávamos e já sabíamos que ele ali estava.
Tu encolhias-te num arrepio e com um sorriso de segredo compartilhado que o medo matava em mim.
Agarravas-me a mão e lá o deixávamos até ao dia seguinte.
Tínhamos uma vida à nossa espera, importante demais para ficar a olhar para ele.
Qual não foi o meu espanto quando hoje, na casa abandonada onde se passam as nossas tardes, o vi à minha frente, a pedir-me a seringa que eu acabava de usar.
Veio-me logo à cabeça o episódio do antigamente.
Sorri-lhe e estiquei-lhe o que me pediu que, mais do que queria, necessitava.
Ele não me reconheceu e não olhou mais para mim de tão apressado que estava.
Eu, chorei a sorrir, enternecida pela beleza do tempo e da vida que nos tinha deixado um dia.
Deitei-me sobre o teu corpo e desejei que um dia me pudesses voltar a fazer cócegas.
:: A. RITA 12:29 AM [+] ::
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:: Domingo, Maio 23, 2004 ::
Achar o sentido das coisas.
O porquê e o para quê e até imaginar e se não há um para onde.
Tentar esquecer a inutilidade.
A nossa para o mundo e a do mundo para nós.
Fazer com que chegue o saber que há que acordar para o nada diário.
Uns dias, transpiro segurança e não deixo nem uma gota cá dentro.
Forma-se uma poça à minha volta que me protege.
Mas a pele já não a absorve.
Alguns dias houve que me fosse perdendo por sonhos bonitos e segundos inesquecíveis.
Mas de resto, nada faz sentido.
:: A. RITA 1:07 PM [+] ::
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:: Sábado, Maio 22, 2004 ::
Temos que encontrar o para quê e o porquê do nosso para onde
Carlos Abrunhosa
:: A. RITA 12:25 AM [+] ::
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:: Terça-feira, Maio 04, 2004 ::
De repente sai do túnel um furacão
É um vento horrível e cinzento que nos destroi as ideias.
Lança-se sobre o carro e despe-nos de mentiras.
Agora, estamos todos a olhar para a janela
A rezar para que não olhem para nós.
:: A. RITA 11:46 AM [+] ::
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:: Segunda-feira, Maio 03, 2004 ::
Tardes que não podem ser cedo
Tarde é quando se chega já depois da hora.
Quando a loja fechou há 2 minutos. Quando a senhora do café diz que já não serve. Quando já temos falta. Quando nos apontam ameaçadoramente um relógio autoritário. Quando o café arrefece. Quando o lugar já está ocupado. Quando o condutor adianta o seu tempo.
Quando, por um segundo, te perco para sempre no tempo.
:: A. RITA 7:51 PM [+] ::
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Um dia vais passar
Pensas que és só tu que eu vou enrolando sem cessar como a um novelo de lã, cobiçado por qualquer gato como o Flint, que olha para mim?
Sabes, já não existes tão sólido.
Estamos ambos mais gastos e desbotados.
Nós é que nos enrolamos como a novelos, como a um cigarro, daqueles que nem sempre fumamos.
Que ficam esquecidos num cinzeiro, à espera.
Sempre à espera que alguém os salve da triste cinza que inevitavelmente os consumirá.
Depois, ficam para sempre amarrotados, num cinzeiro frio.
Só serviram para dar prazer e matar um pouco de alguém.
Assim somos nós.
Vamos, quase sem querer, matando, esfumaçando, consumindo para nós a vida de alguém.
:: A. RITA 7:50 PM [+] ::
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Pára de olhar para trás
Deixa que o tempo leve o pouco que ainda haja para levar.
Não fiques ao sol a morrer na manhã.
Não te afogues em histórias que fazes por inventar,
para tentar evitar que a vida de verdade te apareça à frente.
Não posso esperar pelos abraços eternos.
Nem sequer espero pelo que nunca há-de vir.
Prefiro e tenho preferido, ver-te para mim como nunca foste.
Mas tu não deixas e apagas-te.
Porque não queres ser para mim.
E porque eu tento sempre apagar as velas com as mãos molhadas ainda.
:: A. RITA 2:12 AM [+] ::
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